Ela
Avistou-a de longe. Sabia que era ela. Se o visse ali iria vir falar. Mas não queria, não achava que estava apresentável. Vistia um par de chinelos, um camiseta branca e um bermuda azul escuro. Ela se aproximava, enquanto mastigava o mais rápido que podia seu sanduíche. E sem mastigar por completo entornava o suco rapidamente na goela. Ela olha pra o lado, atravessa a rua descontraída e olha para frente. Pronto. Ela o viu. Estava olhando para sua direção e logo abriu um sorriso. Incrédulo, sorri, num misto de nervosismo com surpresa. Ela pergunta como está e ele responde um tímido "Tudo bem e você?". Ela responde "também" e logo emenda um "E como vai a família?". Ele Responde: "Estão em paz, graças a Deus". Ela parecia estar com pressa, vistia sua roupa de trabalho toda preta e usava uma bolsa. Realmente ficava bem naqueles trajes. Sentia algo por ela mas estava certo de que nunca iria falar isso. De certa forma apreciava esse amor platônico que não trazia tantos problemas e se materializava perfeitamente em sua mente. Apenas devia tomar cuidado quando fossem conversar, ainda mais sendo em horas inesperadas como aquela. Fazia de tudo para que ela tivesse uma imagem perfeita dele mas sabia que não conseguia, sempre dava alguma mancada. Mas mesmo assim aquela moça parecia gostar dele, demonstrava alegria ao vê-lo. Talvez fosse apenas impressão. O "gostar" ao qual ela se referiria a ele seria apenas o de amigo ou de um amigo "super simpático, uma gracinha, mas é novinho!". Não, esse "mas é novinho" ela não falaria, não aparentava dizer coisas do tipo, até porque devia ter seus homens de terno, cabelos molhados, altos e acima de tudo mais velhos que ele dando em cima dela o tempo todo. Era uma mulher disputada com certeza. Pensa na possibilidade dela ter um namorado mas acha que estaria muito atarefada para esse tipo de coisa. Seu sorriso passava paz. Ficou absorto ao contemplar seus dentes e ao sentir que aquilo era o que havia de mais belo para se apreciar. Ela o interrompe: "Você deveria aparecer lá na minha casa com sua família!". Ela já tinha até casa! Mal passou aqueles tempos em que a via com as amigas do prédio a brincar de "adedonha" e outras brincadeiras de papel que não se recorda do nome. Ele responde: "Sim, claro, seria um prazer.". Fita-a e desvia rapidamente para uma criança que esperneava na calçada com sua mãe desesperada segurando sua mão. Não conseguia encarar aqueles olhos castanho claro cintilando na sua frente. Eram belíssimos. Preferia olha-los brevemente e imaginá-los na mente, era algo muito mais tranqüilo. Ela ajeita a bolsa e coloca sua mão dentro. Pega uma folha rasgado de algum caderno e anota algum número. Entrega a ele e diz: "Meu telefone. Entrega para sua mãe!Olha, eu tenho que ir agora, essa vida de trabalho é dura!" - olha para ele como se ela fosse sua mãe lhe dando algum sermão. Depois ela completa: "Diz pro seu irmão que eu mandei um abraço e caso ele puder me ligar...". O que ele não queria ouvir ouviu. Seu irmão, seis anos mais velho que ele, teve um namorico nada sério com ela quando eram mais jovens. Talvez agora ela devia estar a fim de reatar isso. Estava acabado. De chinelo, o pé coçando, com a boca seca, observa-a esboçando um tchau mostrando os dentes e virando-se rapidamente, como se nada tivesse acontecido. Era um absurdo seu irmão ganhar o telefone de uma garota como aquela às suas custas, logo ele que nunca o ajudou com nenhuma menina, apenas abocanhava todas que apareciam, sem dar chances a ele. Mas nenhuma se comparava à ela. Achava difícil ela se interessar pelo seu irmão depois de tanto tempo distantes. Estava muito mais madura que ele. Ele continuava o bobalhão de sempre, o bobalhão que conseguiu perder uma garota como ela. Mas é melhor esquecer isso, realmente ele não tem a menor chance. Ficou a pensar ali durante quase meia hora. Levantou-se, espreguiçou-se, tomou o resto de suco quente que restava, olhou em volta e finalmente começou a caminhar lembrando-se de supetão que haveria prova na manhã seguinte e mal sabia a matéria.


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